Minidocumentário revela como a corrida por minerais “verdes” reproduz desigualdades globais e reposiciona a crise climática como disputa de poder
Mineração expõe limites da transição energética
20/03/2026
por
Katarine Flor*
Teaser do minidocumentário “Mineração, Lucro e Devastação – A farsa da transição energética

A promessa de uma transição energética global costuma ser apresentada como inevitável e consensual. Diante da crise climática, a substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis aparece como solução técnica, urgente e universal. O minidocumentário “Mineração, Lucro e Devastação – A farsa da transição energética” rompe com essa narrativa ao deslocar o olhar: em vez de perguntar como acelerar a transição, pergunta a quem ela serve — e a que custo.

A pré-estreia foi realizada nesta quinta-feira (19/03), na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, com a plateia lotada. O filme foi produzido pelo Programa Latinoamericano de Clima e Energia da Fundação Rosa Luxemburgo em parceria com o Brasil de Fato.

O filme revela que a chamada transição energética, longe de representar uma ruptura com o modelo anterior, tem operado como sua continuidade. A expansão da mineração de minerais estratégicos — como lítio e outros insumos fundamentais para tecnologias “verdes” — expõe um padrão conhecido: territórios do Sul global convertidos em zonas de extração intensiva, onde os impactos ambientais e sociais são tratados como externalidades necessárias.

A expansão da exploração de minerais estratégicos — como o lítio, fundamental para tecnologias “verdes” — tem se intensificado em escala global. Segundo o relatório Em Nome do Clima, a demanda por lítio pode chegar a mais de 8.000% até 2050. 

Esse avanço ocorre em um setor que já possui implicações socioambientais significativas: segundo análise do Observatório da Mineração, com base em dados da McKinsey, a mineração responde por cerca de 7% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Nesse sentido, o documentário evidencia que a crise climática não está sendo enfrentada apenas como um problema ambiental, mas como um campo de reorganização econômica e geopolítica. A transição energética atual não rompe com as estruturas de poder que produziram a crise; ela as reorganiza. Não muda a fonte de energia, ocorrendo um aumento de produção de energia via “renováveis”. O que permanece é a lógica de exploração.

Ao acompanhar os efeitos concretos da mineração sobre territórios e comunidades, o filme desmonta a ideia de que estamos diante de uma solução limpa. A devastação não desaparece — ela se desloca. E esse deslocamento não é aleatório: segue linhas históricas de desigualdade que estruturam as relações entre Norte e Sul global.

É nesse ponto que o documentário se insere em uma leitura mais ampla: a de que o clima é, antes de tudo, uma disputa de poder. O que está em jogo não é apenas a redução de emissões, mas a definição de quais vidas, territórios e economias serão preservados — e quais continuarão sendo sacrificados em nome de um suposto bem comum.

O impacto do filme está também em expor como essa dinâmica é sustentada por narrativas. A transição energética é comunicada como inevitável, técnica e despolitizada. A mineração aparece como etapa necessária, quase natural, de um processo maior. Ao fazer isso, o debate público é deslocado: da política para a engenharia, do conflito para o consenso.

O documentário, entretanto, revela o contrário. Não há neutralidade nesse processo. A forma como a transição é apresentada importa — porque define o que pode ou não ser questionado.

Ao trazer à tona os conflitos ocultados por essa narrativa dominante, o filme convida a uma reinterpretação da própria crise climática. Não se trata apenas de acelerar soluções, mas de disputar os termos em que essas soluções são formuladas. Porque, enquanto a transição energética for conduzida dentro das mesmas lógicas que historicamente produziram desigualdade, ela tenderá a reproduzi-las.

“Mineração, Lucro e Devastação” não oferece respostas fáceis — e talvez esse seja seu maior mérito. Em vez disso, expõe uma contradição central do nosso tempo: a tentativa de resolver a crise climática por meio de mecanismos que dependem da continuidade da exploração.

Se há algo que o filme deixa evidente é que não existe transição neutra. E que, sem enfrentar as estruturas de poder que organizam essa transformação, o risco não é apenas falhar em resolver a crise climática — é aprofundá-la sob novas justificativas.

Teaser: Mineração, Lucro e Devastação – A farsa da transição energética | Documentário TEASER 


* Katarine Flor é jornalista e especialista em comunicação, com atuação nos temas de clima, cidade e democracia. Coordena a comunicação da Fundação Rosa Luxemburgo.

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