Para partidos de esquerda da Europa e dos Estados Unidos, a disputa contra a extrema direita não deve se limitar à análise da pauta do adversário, mas sim focar na capacidade de oferecer melhorias reais nas condições de vida da população. Essa foi a tônica do segundo painel da conferência internacional “Good Night, Far Right – A Saída é Pela Esquerda”, realizado nesta quinta-feira (14), sob o tema “Ganhar eleições, construir força social”.
Os debates apontaram que a retomada da confiança popular passa obrigatoriamente pela organização nos bairros e pela defesa de direitos materiais básicos, como o acesso à habitação.
O encontro, que iniciou sua rodada de debates e formação política na manhã desta quinta-feira, segue até sábado (16). A conferência reúne ativistas, intelectuais e dirigentes políticos de diversos países da América Latina e Europa, além de Estados Unidos e Índia, para consolidar uma estratégia global de resistência.
Na abertura do segundo painel do evento, o diretor da Fundação Rosa Luxemburgo, Andreas Behn, destacou que a pauta foi construída para inverter a lógica tradicional: “Durante meses, estávamos construindo a pauta para estarmos aqui hoje lendo de outra maneira: como ganhar as eleições”.
Segundo Behn, o objetivo é entender como os partidos definem seus públicos-alvo e como as estruturas partidárias podem se conectar de forma eficaz aos movimentos sociais.
A política do cotidiano
Um dos pontos de maior convergência entre as experiências da Áustria, da Alemanha e dos Estados Unidos, que tinham representações na mesa, foi a centralidade da luta pelo direito à moradia como ferramenta de mobilização.
Vinzenz Glaser, ativista do partido alemão Die Linke (A Esquerda, na tradução), defendeu que a primeira ideia para o campo progressista é focar nas “políticas materiais”. Segundo ele, “nós precisamos de políticas que melhorem as condições materiais, e um sistema que nos dê segurança em vez de punição”.
Essa visão é compartilhada por Max Rigele, do Partido Comunista da Áustria (KPÖ, na sigla em alemão), que explicou como um partido pequeno tem ganhado espaço e crescido nas pesquisas ao focar no custo dos aluguéis, por exemplo.
Rigele detalhou que, na Áustria, o “efeito elevador” da mobilidade social parou, criando um terreno fértil para o potencial fascista. Para ele, o sucesso eleitoral recente do KPÖ em cidades como Graz e Salzburgo deve-se à utilidade prática do partido para as pessoas comuns.
“A gente quer mudar as realidades e, para isso, é necessário que exista desenvolvimento”, afirmou Rigele. “Como partido pequeno e limitado, temos que saber como usar nosso tempo e energia para contribuir para atingir os melhores resultados”.
A estratégia também ecoa em Nova York, conforme relatou Grace Mausser, ativista do Socialistas Democráticos da América (DSA, sigla em inglês). Ela detalhou como a organização — que não é um partido formal, mas atua como um — tem mobilizado a classe trabalhadora em torno da figura do prefeito Zohran Mamdani.
A campanha em Nova York focou intensamente na questão dos aluguéis e na inclusão de comunidades frequentemente marginalizadas, como a muçulmana e a sul-asiática. “Em 2024, nós fomos convidados a ser líderes em coalizões mais amplas contra as políticas de Trump”, explicou Mausser, destacando que a promessa de congelar aluguéis foi o motor de uma mobilização que bateu em milhões de portas.
Alianças e organização extraparlamentar
Outro eixo central do debate foi a necessidade de coalizões que impeçam o isolamento da esquerda diante da periculosidade da extrema direita. Vinzenz Glaser alertou que “a extrema direita é muito perigosa para ficarmos isolados”, defendendo a união de frentes amplas.
No entanto, Glaser ressaltou que o trabalho institucional não é suficiente. “A extrema-direita não é derrotada só no parlamento. Ela é derrotada quando as pessoas se organizam politicamente, se organizam nos bairros, nos sindicatos, e criam essas estruturas democráticas”.
Anika Taschke, cientista política e consultora da Fundação Rosa Luxemburgo, reforçou a análise de que a vitória eleitoral é apenas uma parte do processo de construção à esquerda.
Para os palestrantes, a luta pelo poder estatal exige que o partido mantenha sua integridade e continue servindo de ferramenta de luta para a base. Como resumiu Glaser ao encerrar suas reflexões sobre as táticas na Alemanha: “Nosso trabalho não é só ganhar as eleições, mas ganhar a consciência da base”.
A conferência “Good Night, Far Right” acontece na região central de São Paulo, com grupos de trabalho focados em aprofundar as táticas de comunicação digital e resistência territorial apresentadas nos painéis.
Esta produção é uma parceria entre Fundação Rosa Luxemburgo e Brasil de Fato.
Editado por: Thaís Ferraz


