Nesta sexta-feira (15) completam-se 78 anos da Nakba, termo árabe que significa “tragédia” e marca a criação do Estado de Israel, em 1948. Em visita a São Paulo para participar de uma conferência internacional organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo, o ativista Imad Touma, integrante do Partido Popular Palestino, concedeu entrevista ao Brasil de Fato destacando que a data não deve ser encarada como um registro estritamente histórico.
Para Touma, o processo de expulsão e violência iniciado há quase oito décadas permanece ativo na atualidade. “A Nakba não é apenas um evento que aconteceu e parou; a Nakba ainda está em curso”, declarou o ativista. Ele argumentou que a lógica de limpeza étnica aplicada na fundação do Estado de Israel continua a ser a base das políticas implementadas nos territórios ocupados.
O ativista relembrou que a Nakba resultou em uma crise humanitária de proporções globais, com uma população de aproximadamente 7 a 8 milhões de palestinos vivendo hoje na diáspora. Segundo Touma, esse contingente de refugiados está espalhado por países vizinhos e por diversos continentes, mantendo viva a reivindicação pelo Direito de Retorno às suas terras de origem, um pilar central da resistência palestina.
Sobre a situação na Faixa de Gaza, o ativista traçou um paralelo direto entre o cenário atual e o projeto sionista original. Ele afirmou que o que o mundo testemunha hoje é uma fase ainda mais agressiva de um plano de longa duração.
“O que temos testemunhado nos últimos dois anos de genocídio é que este inimigo está indo além com seus planos, destruindo todo o senso comum de direitos humanos e continuando sua limpeza étnica”, disse.
Touma também abordou a realidade dos palestinos que vivem dentro das fronteiras de 1948, em território hoje controlado por Israel. Segundo o ativista, essa população enfrenta um racismo estrutural e é tratada como “cidadãos de terceira classe”. Ele explicou que essas pessoas vivem sob constante ameaça de desapropriação e apagamento de sua identidade indígena no território.
O ativista também avaliou a diplomacia internacional. Setembro do ano passado, países como Reino Unido e Austrália sinalizaram ou efetivaram o reconhecimento do Estado da Palestina. Embora veja o gesto como um avanço, Touma demonstrou um otimismo cauteloso e apontou contradições nas motivações dessas potências ocidentais.
Para o ativista, o reconhecimento diplomático muitas vezes é usado como uma estratégia para tentar salvar a solução de dois estados sem alterar a correlação de forças real. “O reconhecimento é bom, mas não é o suficiente para parar Israel de cometer atos de assassinato e continuar a limpeza étnica”, ponderou Touma, reforçando que a paz não pode ser apenas discursiva.
Ele foi enfático ao denunciar a hipocrisia de nações que pregam a paz enquanto alimentam o conflito militarmente. “Alguns Estados estão reconhecendo a Palestina, mas ao mesmo tempo continuam entregando armas para Israel”, afirmou. Para o palestino, o fim da Nakba passa obrigatoriamente pela interrupção do suporte bélico ao governo israelense.
Touma elencou ainda as demandas que considera urgentes para a sobrevivência de seu povo, que incluem a reconstrução imediata da infraestrutura na Faixa de Gaza e a garantia efetiva do direito de retorno para os refugiados. Segundo ele, sem medidas concretas que enfrentem a expansão dos assentamentos na Cisjordânia, o reconhecimento do Estado da Palestina corre o risco de ser uma casca vazia de soberania.
Editado por: Thaís Ferraz




