A ofensiva global da extrema direita passa hoje pela disputa cotidiana da vida das pessoas, explorando medo, insegurança e frustrações sociais para corroer direitos historicamente conquistados — e até fazer propaganda eleitoral em cima disso. Essa foi uma das principais avaliações compartilhadas por lideranças do Brasil, da Índia e do Paraguai durante a mesa “A agenda anti-direitos: respostas às estratégias da extrema direita”, realizada nesta sexta-feira (15), em São Paulo (SP), na conferência internacional Good Night, Far Right – A Saída é Pela Esquerda, organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo.
O debate reuniu Esperanza Martínez, ex-ministra da Saúde do Paraguai e presidenta do Partido Participação Cidadã; a ativista e escritora indiana Kavita Krishnan; e a ex-deputada federal Aurea Carolina (Psol-MG), com mediação de Cristiane Gomes, coordenadora de projetos da Fundação Rosa Luxemburgo no Brasil e Paraguai.
Ao longo da mesa, as participantes apontaram que a extrema direita internacional conseguiu construir uma linguagem política simples e emocionalmente eficaz para mobilizar setores populares, especialmente em torno de pautas ligadas à segurança pública, moralidade e costumes.
“O medo é a palavra-chave”, afirmou Esperanza Martínez ao relatar o avanço da militarização no Paraguai após o golpe contra o ex-presidente Fernando Lugo, em 2012. Segundo ela, sucessivos governos conservadores passaram a utilizar o combate ao narcotráfico e a chamada “ideologia de gênero” como eixos permanentes de mobilização política.
“Eles conseguiram concretizar uma linha comunicacional com palavras simples, com palavras comuns que terminam perfurando as bases sociais e populares”, avaliou.
Martínez afirmou que a esquerda historicamente teve dificuldades para disputar o tema da segurança pública, permitindo que a extrema direita associasse segurança apenas a repressão, armas e militarização, enquanto mantém intactas as estruturas econômicas e políticas que alimentam a violência.
A dirigente paraguaia também alertou para o avanço da presença militar estadunidense no país após a assinatura do acordo Sofa, que permite a entrada de militares e agentes norte-americanos em território paraguaio sob regras jurídicas dos Estados Unidos. “Não há nada inocente nem casual. Isso faz parte de uma estratégia”, afirmou.
“Eles querem tornar a democracia impopular”
A ativista indiana Kavita Krishnan avaliou que a extrema direita global atua hoje para destruir a própria noção de direitos universais e tornar a democracia um valor desacreditado socialmente. “Eles estão tentando tornar a democracia impopular”, resumiu.
Segundo ela, lideranças de direita ao redor do mundo compartilham uma lógica política comum, baseada na negação da universalidade dos direitos e na defesa de modelos nacionalistas e autoritários. Krishnan argumentou que esses governos já não tentam sequer aparentar compromisso democrático. “Eles estão transformando a violação de direitos em algo popular”, disse.
A escritora também criticou setores da esquerda internacional que relativizam violações de direitos em nome de uma suposta “multipolaridade” geopolítica. Para ela, existe hoje uma convergência internacional entre governos autoritários interessados em substituir direitos universais por projetos nacionalistas e civilizacionais.
“Precisamos saber o que estamos defendendo”, afirmou. “Defender direitos universais hoje também é defender uma revolução.”
Na visão de Kavita, é preciso disputar a esquerda para que ela seja sempre o melhor que pode ser. Ao defender o internacionalismo entre lutas populares, ela afirmou que “a solidariedade começa por reconhecer que as lutas dos povos oprimidos são lutas por democracia”.
Segurança pública e disputa cotidiana
A ex-deputada federal Aurea Carolina apontou que, no Brasil, a extrema direita atua de forma “coordenada e pulverizada” no cotidiano, especialmente nos legislativos municipais, disputando pautas ligadas à cultura, sexualidade, drogas e segurança pública.
Segundo ela, há uma ofensiva permanente contra direitos sexuais e reprodutivos, manifestações culturais periféricas e políticas sociais. “Existe uma política do cotidiano que conversa diretamente com as pessoas”, afirmou.
A parlamentar destacou o avanço de setores conservadores sobre espaços como os conselhos tutelares e alertou para projetos de criminalização do funk e endurecimento das políticas de drogas nos municípios. Ao abordar a segurança pública, Aurea afirmou que a extrema direita conseguiu consolidar um imaginário punitivista mesmo diante do fracasso do encarceramento em massa e da violência policial.
Ela citou a operação policial realizada no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, no ano passado, que deixou mais de 120 mortos. “Mesmo com toda a barbárie, nada disso foi suficiente para demover a população de que esse é o caminho”, disse.
Para a deputada, a esquerda ainda não conseguiu construir uma resposta simples e concreta para o tema. “Enquanto a extrema direita usa uma frase para dizer que a solução para a segurança pública é prender e matar, a gente tem mil teorias”, afirmou.
Para Aurea, isso exige que a esquerda volte a investir em políticas de proximidade, serviços comunitários e iniciativas capazes de responder a demandas imediatas da população. Ela citou como exemplo o debate sobre enfrentamento à violência contra as mulheres, que, segundo ela, tem conseguido atravessar a polarização política e sensibilizar setores mais amplos da sociedade.
“Disputar o orçamento e o desenho das políticas públicas a partir de práticas comunitárias vai ser muito importante”, resumiu.
Na avaliação da parlamentar, experiências locais podem funcionar como laboratório para políticas públicas mais amplas, inclusive em cooperação internacional entre governos e organizações populares. “A eleição de parlamentares para os legislativos municipais deve ser uma prioridade nossa”, defendeu.
A conferência Good Night, Far Right – A Saída é Pela Esquerda segue nesta sexta-feira (15), em São Paulo, com debates sobre imperialismo, guerra e desordem global. A programação termina no sábado (16), com atividades abertas ao público.
*Esta produção é uma parceria entre Fundação Rosa Luxemburgo e Brasil de Fato.
Editado por: Thaís Ferraz



