A série especial de podcasts “Democracia sob cerco”, produzida pelo Le Monde Diplomatique Brasil em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo, explora os vínculos entre o fascismo histórico e o neocolonialismo e analisa de que forma a extrema-direita se reorganiza no Brasil e no cenário internacional
Democracia sob cerco: fascismo histórico e neocolonialismo em debate
17/05/2026
por
Katarine Flor

No início de maio de 2026, o Guilhotina, podcast do Le Monde Diplomatique Brasil, lançou a série “Democracia sob cerco: como a extrema direita se reorganiza no Brasil”. Produzido em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo, o especial foi concebido num momento em que o país permanece profundamente polarizado: mesmo após quatro anos de governo Lula, o bolsonarismo continua consolidado como força política e a extrema‑direita ainda mobiliza amplos setores da sociedade. Ao longo de oito episódios publicados às quintas‑feiras, o jornalista Luís Brasilino entrevista ativistas e especialistas para entender por que o discurso autoritário persiste e como combater a agenda antidemocrática.

A série integra a série de produções relacionadas à Conferência Internacional “A saída é pela esquerda – Good Night, Far Right”, iniciativa da Fundação Rosa Luxemburgo voltada à defesa da democracia e à construção de narrativas progressistas. Cada programa conta com roteiro, apresentação e produção de Brasilino e edição/sonorização de Beatriz Pasqualino, da Rádio Tertúlia. A seguir, um resumo dos dois primeiros episódios.

Episódio #1 – “Fascismos ontem e hoje”

O episódio inaugural, publicado em 7 de maio de 2026, convida o historiador Lincoln Secco a pensar o fascismo como fenômeno histórico e como linguagem política contemporânea. Secco explica as origens do fascismo, analisa suas bases sociais e destaca as especificidades do fascismo no Brasil, onde o bolsonarismo se alimenta de discursos extremistas e de uma base social enraizada. O historiador também discute os desafios colocados à democracia brasileira e as dificuldades de enfrentar um movimento que, embora derrotado eleitoralmente, continua ocupando espaços políticos e culturais.

O episódio mostra que compreender o fascismo exige olhar não apenas para o período entre guerras na Europa, mas também para a atualização dessa linguagem em contextos democráticos, como o Brasil. A conversa busca desnaturalizar o autoritarismo, mostrar suas conexões com crises econômicas e inseguranças sociais, e refletir sobre estratégias de resistência.

Episódio #2 – “Extrema direita e neocolonialismo”

No episódio seguinte, lançado em 14 de maio de 2026, a cientista política Monica Bruckmann debate a relação entre a ascensão da extrema‑direita nos Estados Unidos, a crise da hegemonia norte‑americana e as pressões sobre a América Latina. A partir de perguntas como “os ataques de Donald Trump aos países latino‑americanos são demonstrações de força ou de fraqueza?” e “o que o declínio do império norte‑americano e a ascensão chinesa significam para o Brasil e a região?”, o programa investiga como o avanço da ultradireita se articula com estratégias neocoloniais. Bruckmann, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e especialista em geopolítica e integração regional, destaca que a retórica belicosa nos EUA convive com uma perda de influência global e que a disputa entre Washington e Pequim abre oportunidades e riscos para os países latino‑americanos.

O diálogo ressalta que o neocolonialismo contemporâneo se expressa tanto em políticas econômicas quanto em intervenções ideológicas e culturais. A convidada aponta que, diante do vazio de liderança, extremistas constroem narrativas apocalípticas e exploram medos em torno de perda de soberania. Para o Brasil, compreender esse cenário é vital para formular políticas externas soberanas e para fortalecer alianças regionais que resistam a pressões autoritárias.

Ficha técnica e parceiros

  • Podcast: Guilhotina – Le Monde Diplomatique Brasil.
  • Produtor/apresentador/roteiro: Luís Brasilino.
  • Edição e sonorização: Beatriz Pasqualino (Rádio Tertúlia).
  • Parceria institucional: Fundação Rosa Luxemburgo, no âmbito do projeto “A saída é pela esquerda – Good Night, Far Right”.
  • Formato: série de 8 episódios publicados semanalmente; os programas são gravados em português e estão disponíveis em plataformas de streaming e no site do Le Monde Diplomatique Brasil.

Conclusão

“Democracia sob cerco” se destaca como um esforço jornalístico e acadêmico para explicar as raízes e as metamorfoses da extrema‑direita, fornecendo contextos históricos e geopolíticos ao debate público. Ao reunir pesquisadores como Lincoln Secco e Monica Bruckmann, a série ilumina a continuidade entre fascismos passados e discursos autoritários presentes, e evidencia como a reorganização da ultradireita se conecta a dinâmicas globais de poder. O projeto reforça a importância de defender a democracia por meio do conhecimento, convidando a audiência a refletir sobre a urgência de construir alternativas progressistas em tempos de radicalização política.

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