A ascensão da esquerda na Colômbia, onde Ivan Cepeda lidera as pesquisas de intenção de voto com mais de 44% do eleitorado para as eleições presidenciais de 30 de maio, é resultado de 15 anos de lutas sociais. Nesse bojo, entram, além da aprovação do atual presidente, Gustavo Petro, o movimento estudantil, as greves agrárias, o desejo popular por paz e a explosão social pós-pandemia contra o governo Duque.
Essa é a opinião de Donka Atanassova, vereadora pelo Pacto Histórico, coalizão progressista criada para apoiar Petro, o primeiro presidente de esquerda da Colômbia. Em São Paulo para a conferência “A Saída é pela Esquerda – Good Night, Far Right”, organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo, Donka falou ao Brasil de Fato sobre a fragmentação do centro político colombiano e como a esquerda conseguiu mobilizar cerca de 1,5 milhão de eleitores historicamente marginalizados.
Ela explicou que, enquanto o mundo caminha para a extrema direita, a Colômbia elegeu a esquerda devido à consolidação do processo de paz, que deslocou o debate da violência armada para a arena democrática. Rompendo com o histórico de submissão aos EUA, Petro adotou uma postura firme e conquistou liderança global em temas como a Amazônia e o clima.
Essa postura de “não se ajoelhar” gera orgulho e forte apoio popular interno, mas hostilidade da Casa Branca, o que aumenta a tensão para o pleito do dia 30, com a possibilidade de resolução em um único turno. Leia abaixo a entrevista:
Brasil de Fato: Como a reorganização do bloco governante em torno do pacto histórico afeta o equilíbrio de forças políticas na Colômbia?
Donka Atanassova: Bem, a primeira coisa a dizer é que a Colômbia está vivendo um acontecimento histórico particular, um momento muito especial. Não é apenas uma conjuntura eleitoral ou uma capacidade de fortalecimento das esquerdas, mas um fenômeno social ligado a um ciclo de lutas de cerca de 15 anos. Esse processo começou com o movimento estudantil na década de 2010, passou pelas greves agrárias de 2013 e 2015, e foi profundamente marcado pelo processo de paz. Para além da negociação com as guerrilhas, houve um movimento cidadão que gerou, no senso comum colombiano, a ideia de que a paz era necessária.
Depois disso, enfrentamos o ciclo da pandemia que, na Colômbia, gerou um forte processo de mobilização. Começou contra abusos policiais e evoluiu para uma greve nacional contra a reforma tributária do governo Duque, terminando em uma explosão social que contagiou todas as cidades. Isso alimentou a percepção de que não havia vontade política para decisões estruturais e que os problemas de violência iam além da existência das FARC. Esse acumulado social se conectou com figuras fortes da esquerda, como Gustavo Petro e Francia Márquez, permitindo que, ao contrário de quatro anos antes, chegássemos ao segundo turno e vencêssemos as eleições.
Naquele momento, o Pacto Histórico era uma coalizão de cerca de 12 expressões políticas, incluindo o Polo Democrático, a Colômbia Humana, partidos de tradição comunista (UP e PCC) e movimentos indígenas como o Maíz. Recentemente, decidimos transformar essa coalizão em um partido único e unificado. Operacionalmente, ser uma coalizão era complexo e nos tornava vulneráveis a perseguições do Conselho Nacional Eleitoral. Além disso, entendemos que, sem um partido unificado, não teríamos a profundidade necessária para o projeto de transformação. Hoje, o Pacto é um partido de esquerda e progressista consolidado, não mais apenas uma diversidade de siglas.
Essa mudança divide o panorama político nacional em dois espectros: os que estão com Petro e o Pacto, e os que estão contra. O “centro” político acabou se diluindo ou se fragmentando dentro dos partidos tradicionais. Houve um processo de consciência política muito forte; pessoas que antes se abstinham (a abstenção chegava a 70% em algumas regiões) voltaram a votar porque sentem que a política agora serve para algo cotidiano. Esse cisma forçou todos os partidos tradicionais a uma fragmentação interna.
O que é estranho é que a polarização ocorre em todo o mundo, com o crescimento da extrema direita. Na Colômbia, a esquerda se fortalece, contrariando essa tendência internacional. Por quê?
A Colômbia sempre esteve um pouco fora de sincronia. Quando a primeira onda progressista latino-americana aconteceu, a Colômbia estava sob a direita mais dura. O sucesso atual deve-se à consolidação do processo de paz. Embora a violência das máfias continue, o uso da violência como ferramenta política diminuiu, permitindo que o esforço das pessoas se concentrasse no campo democrático. Além disso, já vínhamos de experiências bem-sucedidas em governos locais, o que semeou a sensibilidade de que governos sintonizados com o povo funcionam.
Em 2018, não ganhamos porque a paz foi usada como um divisor de águas manipulado pela direita. Mas o governo seguinte (Duque) não mudou nada, não implementou a reforma agrária e gastou o dinheiro da paz em corrupção. Isso gerou uma reação: “Não vamos deixar que roubem nosso futuro”. Essa esperança mobilizou 1,5 milhão de novos eleitores que nunca haviam votado. Nas últimas parlamentares, nossa votação saltou de 2,8 milhões para 4,5 milhões. As pessoas viram que o governo realmente tenta fazer as coisas, apesar dos bloqueios do Congresso e dos tribunais.
E o que mudou em um ano? Porque no ano passado os analistas diziam que o sucessor de Petro não venceria, mas agora as pesquisas apontam que seu projeto pode ganhar no primeiro turno. Por que mudou?
A primeira etapa do governo foi de “Acordo Nacional”. Petro não queria apenas impor sua agenda, mas criar consenso sobre temas estruturais como saúde, reforma agrária e educação. No entanto, os setores tradicionais e de centro que entraram no governo o fizeram para frear as mudanças. Por exemplo, entregamos a agricultura ao liberalismo clássico e a reforma agrária não avançou um hectare em um ano e meio. Quando Petro decidiu romper esse acordo nacional, percebendo que a elite só queria bloquear a reforma da saúde (que é um sistema em que o dinheiro público é entregue a privadas sem prestação de contas), o governo realmente começou a andar.
No segundo e terceiro anos, começamos a mostrar resultados contundentes: a reforma trabalhista (recuperando pagamentos de horas extras e domingos), a reforma previdenciária garantindo renda básica para idosos e a redução de privilégios, como o corte por decreto de bônus salariais dos congressistas. Essas medidas de “justiça para os pobres” têm um peso enorme no senso comum. As pessoas sentem que, embora a mudança não tenha chegado a todos ainda, ela está acontecendo. Petro soube usar a mobilização social para defender essas reformas toda vez que o Congresso tentava bloqueá-las.
Nossa proposta de futuro agora é o que chamamos de “aprofundamento das revoluções”: consolidar cooperativas camponesas, garantir o ingresso universal nas universidades públicas e reformular a política de moradia, que hoje é capturada por construtoras privadas. O próximo presidente terá um desafio no Congresso, que continuará sendo um espaço de correlação de forças difícil, mas agora temos mais experiência e imaginação política para navegar por lá.
Finalmente, para terminar, o que você pensa sobre a interferência de Donald Trump e dos Estados Unidos? Qual é o efeito que ela tem na Colômbia?
A interferência tem várias vertentes. Trump tem aversão total ao projeto de Petro e move peças para inclinar a balança eleitoral, embora a direita colombiana esteja dividida sobre quem apoiar. O mais preocupante é a interferência no conflito armado atual, ligado às economias ilegais. Sentimos que há um “controle remoto” ativado em momentos estratégicos, como os bombardeios na fronteira com o Equador. A embaixada americana inscreveu 86 observadores para estas eleições — algo nunca visto, já que o normal eram cinco.
Por outro lado, Petro conquistou uma liderança internacional que gera orgulho. Historicamente, nossos presidentes eram submissos aos EUA. A atitude performática de Petro — sacar a espada de Bolívar, convocar o povo contra ameaças externas e fazer discursos fortes na ONU — muda a percepção do colombiano sobre si mesmo. Ele posicionou o país como alguém que propõe soluções globais para a Amazônia e o carbono, mesmo que os convênios internacionais ainda demorem a se concretizar. O povo vê um presidente que não se ajoelha, e isso é um fator determinante para o apoio popular que vemos hoje.
*Esta produção é uma parceria entre Fundação Rosa Luxemburgo e Brasil de Fato.
Editado por: Rafaella Coury



