Faltando poucas semanas para o primeiro turno das eleições presidenciais na Colômbia, a coalizão governista parece mais perto da continuidade do que da derrota. Segundo todas as pesquisas divulgadas no último mês, a chapa de Iván Cepeda e Aida Quilcué deve obter a maior votação no primeiro turno. A pesquisa Invamer aponta 44,3% de intenção de voto, a GAD3, 36%, a Guarumo, 38%, a Atlas Intel, 37,4%, e o Centro Nacional de Consultoria, 37,2%.
Todas as pesquisas também apontam uma disputa entre as duas candidaturas de direita, lideradas por Paloma Valencia e Abelardo de la Espriella, para o segundo turno. Embora as diferenças variem de acordo em cada pesquisa, Abelardo de la Espriella está à frente de Paloma Valencia em todas elas: 21,5 %/19,8 % na Invamer; 21 %/13 % na GAD3; 29,4%/20,9% na Atlas Intel; 20,4%/15,6% na CNC; e 23,9%/22,8% na Guarumo.
Enquanto a candidatura de esquerda lidera as intenções de voto no primeiro turno e a direita fragmentada vive uma disputa acirrada, o centro político consolida seu declínio. No último mês, as candidaturas lideradas por Sergio Fajardo e Claudia López não chegaram a 4% das intenções de voto.
Os cinco institutos de pesquisa têm previsões parecidas para o primeiro turno, no entanto, há diferenças significativas do prognóstico para o segundo turno (em que o candidato vencedor precisa obter mais de 50% dos votos). A Invamer, a GAD3 e o CNC apontam que Cepeda derrotaria tanto De la Espriella quanto Valencia no segundo turno. A Guarumo aponta uma vitória apertada de Cepeda sobre De la Espriella e prevê sua derrota para Valencia. A Atlas Intel sugere que Cepeda seria derrotado por qualquer um dos dois candidatos de direita no segundo turno.
O favoritismo da esquerda, a divisão da direita, o desastre do centro e uma disputa acirrada no segundo turno são tendências da reconfiguração do cenário político na Colômbia.
Próximos passos
O favoritismo de Cepeda (assim como suas limitações) depende diretamente do desempenho do governo de Petro, cuja gestão tem transmitido uma imagem de empenho por mudanças sociais que se expressa principalmente em quatro pontos:
Uma agenda de reformas sociais redistributivas com foco na recuperação dos direitos trabalhistas, mudanças no sistema de previdência social, avanços na garantia da educação pública e distribuição de terras para famílias camponesas, povos indígenas e comunidades afro-colombianas.
Uma liderança alternativa nos debates globais em meio à onda militarista e ao avanço da direita mundial, como o repúdio ao genocídio em Gaza e o enfrentamento ao governo Trump pela deportação de colombianos.
O distanciamento explícito da agenda extrativista e da dependência dos combustíveis fósseis como estratégias de desenvolvimento econômico.
Um discurso de enfrentamento ao poder político e econômico tradicional.
Petro não traiu esse discurso de mudança. Ele obteve resultados legislativos e se aproximou de setores negligenciados pelos governos anteriores. A reforma trabalhista, o reconhecimento do campesinato como sujeito de direitos, o aumento das verbas para as universidades públicas, a regulamentação da lei sobre territórios afro-colombianos, a constituição de entidades territoriais indígenas e o aumento do salário mínimo são algumas das conquistas mais importantes. Esses avanços aconteceram mesmo com a resistência da oposição e as divergências de alguns setores do Estado que não têm alinhamento com o Executivo.
Nesse contexto, o governo tem apostado em uma mensagem eficaz: as conquistas são resultado da ação governamental, os fracassos se devem a fatores externos. O governo tem usado a pressão da oposição, o escrutínio da imprensa corporativa, as decisões desfavoráveis do Poder Judiciário e as divergências com a diretoria do Banco Central como fatores a seu favor. Isso evitou que o eleitorado se desiludisse, já que cria uma imagem de um governo bem-intencionado, perseguido e boicotado pelos inimigos. Por outro lado, os críticos interpretam essas disputas como ameaças do Executivo aos órgãos institucionais.
Ao contrário do que aconteceu com outros governos progressistas da região, o governo do Petro mantém laços sólidos com os movimentos sociais. Não há sinais de distanciamento, ruptura ou de que os setores populares com capacidade de mobilização tenham passado para a oposição. Isso inclui os movimentos sociais mais críticos às políticas pendentes do governo e as organizações que se mobilizaram para forçar negociações e mesas de diálogo com funcionários do alto escalão. Nos governos de Uribe, Santos e Duque, a mobilização social se orientava por mudanças nas políticas públicas e no modelo econômico. No governo de Petro, a mobilização busca pressionar o governo para cumprir seu próprio programa. Assim, o apoio das organizações sociais a Cepeda reflete um misto de convicção e atuação racional, já que a confiança na continuidade reafirma tanto a possibilidade de mudanças gerais na política quanto as expectativas em relação aos benefícios que essas transformações podem trazer.
Os setores políticos próximos ao atual governo e ao candidato governista se uniram de forma coesa em torno do Pacto Histórico (PH). Essa coalizão inclui a esquerda histórica (destaca-se a participação de Aida Quilcué, que vem do movimento indígena e possui experiência parlamentar), representações eleitorais dos movimentos sociais, políticos tradicionais em processo de conversão (ou de oportunismo) e novas figuras impulsionadas pelo trampolim das redes sociais. As iniciativas eleitorais que, dentro do espectro progressista, buscaram se afastar do Pacto Histórico (PH), ou fracassaram nas urnas, ou não têm grande futuro fora dessa coalizão. É o caso das candidaturas ao Congresso promovidas por Roy Barreras e Carlos Caicedo, dois candidatos à presidência com poucas chances (para não dizer nenhuma)
Resumindo, tanto no plano eleitoral quanto social, a candidatura de Iván Cepeda reflete um bloco coeso, sem grandes divisões, apesar das tensões internas.
Os tropeços
O otimismo dos que defendem a continuidade fica ofuscado por certas contradições do governo atual que certamente influenciarão a próxima eleição.
Os agonismos internos têm marcado o governo desde o início. A rotatividade de ministros e ministras por divergências com o presidente, as tensões refletidas nos conselhos de ministros e as diferenças entre o alto escalão da esquerda e uma ala proveniente da política tradicional (especialmente o ministro do Interior, Armando Benedetti, e a atual embaixadora, Laura Sarabia) mostram um racha profundo dentro do governo. Isso repercute na opinião pública e, com certeza, afeta negativamente a gestão do Executivo. O desaparecimento gradual da vice-presidente Francia Márquez dos debates públicos é um sintoma desse problema mais geral.
Além disso, o escândalo de corrupção na Unidade Nacional de Gestão de Riscos de Desastres, a prisão do filho do presidente por irregularidades no financiamento de campanha ou a influência inusitada de uma candidata novata a vice-ministra da Juventude, que não atendia aos requisitos para o cargo, são fatores que afetaram profundamente a imagem do governo perante a opinião pública.
Os fracassos em alguns dos principais pontos do programa do Petro, como a reforma da saúde ou a política de paz, trouxeram graves consequências para a sociedade e para o governo. Embora o governo não tenha conseguido aprovar uma reforma no sistema de saúde, a reação dos gestores privados ligados ao capital financeiro desencadeou uma crise que o governo não soube conter, aumentando as reclamações dos pacientes em todo o país.
Em relação à paz, a ambiciosa política do governo de manter diálogos com uma ampla variedade de grupos armados ilegais fracassou de forma retumbante, levando ao recrudescimento da violência em algumas regiões do país. Segundo dados da Indepaz, 22 lideranças sociais foram assassinadas desde abril (até 10 de maio), o que equivale a um assassinato a cada 48 horas nesse período. O surgimento de novos grupos armados após o Acordo de Paz assinado com as FARC em 2016 e a consequente disputa pelo controle do território entre organizações armadas, tanto legais quanto ilegais, aprofundaram a falta de segurança em várias regiões do país, uma situação da qual se aproveitam as candidaturas da oposição.
Talvez a principal limitação do governo tenha sido o alto grau de incerteza em relação à estrutura geral de seu projeto social. Nos dois primeiros anos, o governo oscilou entre o ajuste institucional característico da chegada ao poder e a paranoia (às vezes exagerada) diante da possibilidade de um “golpe brando”. A prioridade naquele período era se manter no governo, mais do que a capacidade de executar um plano com visão sistêmica. A animosidade entre o chefe do Departamento Nacional de Planejamento e o presidente reflete bem isso. Na política econômica, o governo tomou várias decisões que favoreceram o endividamento, o que provavelmente terá um impacto negativo para o próximo governo, e a Justiça rejeitou de forma sistemática os decretos de emergência econômica. No entanto, o governo mantém resultados econômicos razoáveis. O dólar não disparou, a taxa de desemprego continua sendo a menor do século e não há sinais de um surto inflacionário grave à vista.
A (aparente) divisão da direita
Apesar das dificuldades, imprecisões e erros do governo, nesses quatro anos a oposição não conseguiu criar uma coalizão unificada, uma liderança clara ou um bloco social com capacidade de mobilização para tomar as ruas.
Essa fragilidade é sintomática das dificuldades da direita colombiana em formar um bloco com projeto definido. As investigações judiciais contra o ex-presidente Álvaro Uribe e o legado de derrotas de seu discípulo Iván Duque são sinais de um grave problema de liderança da direita colombiana. Não é à toa que, na eleição de 2022, quem disputou o segundo turno com Gustavo Petro, após o fracasso eleitoral de Federico Gutiérrez – o candidato apoiado por Uribe –, foi um líder político regional alheio às elites políticas.
Parte desse fracasso se deve à falta de propostas inovadoras, já que seus projetos de sociedade repetem a combinação previsível e fracassada entre militarização e neoliberalismo. Receitas perigosas, impopulares e pouco criativas. Ou seja, para a direita, o único objetivo da agenda é deter a esquerda para recuperar o controle do Executivo.
Diante do fraco desempenho dos políticos profissionais, alguns setores empresariais passaram a buscar uma outsider que encarnasse o espírito da época da direita global. Foi assim que surgiu a pré-candidatura da jornalista Vicky Dávila, apoiada pelo segundo homem mais rico da Colômbia, Jaime Gilinski. No entanto, a expectativa de uma “Milei cafeicultora” nunca se concretizou, levando à aparição do advogado Abelardo de la Espriella. “El Tigre”, como ele se autodenomina numa imitação não muito sutil do libertário argentino, repetiu obedientemente o roteiro da direita continental inspirada por Trump e pelos exilados de Miami. Se a jornalista Dávila não conseguiu decolar, De la Espriella foi a resposta às preces da teologia da prosperidade, que sonha com redução de impostos, redução de direitos e empreendimentos no mundo da machosfera.
Mas o outsider precisa de uma insider. Num regime político em que a oligarquia local e a tecnocracia neoliberal têm um peso complementar, o ex-presidente Uribe optou por ampliar seu alcance para conquistar setores afins sem filiá-los como militantes do seu partido. Para isso, escolheu como pré-candidata Paloma Valencia, neta de um ex-presidente conservador e reconhecida herdeira de capital político e financeiro. Em seguida, ele a incluiu na chamada “Consulta pela Colômbia”, uma coalizão convocada inicialmente por algumas figuras de centro-direita.
Valencia venceu com folga a votação para escolher a candidata à presidência nessa aliança. Com essa jogada, o uribismo conseguiu conquistar os eleitores do centro, embora, na verdade, venha dos setores mais radicais do cenário político colombiano. Para consolidar essa imagem de direita, mas com um toque mais moderado, Valencia escolheu como vice Juan Daniel Oviedo, um tecnocrata que faz parte da comunidade gay, com grande habilidade de comunicação e uma imagem renovada, o que contrabalança o conservadorismo extremo da candidata à presidência.
Assim, Valencia e De la Espriella apostam numa estratégia de revezamento, na qual conquistam setores eleitorais complementares. O excêntrico advogado tenta imitar Milei e Bukele; Valencia surge como a representante dos poderes tradicionais capaz de dialogar com o centro político. Dessa forma, eles esperam somar seus votos para enfrentar o adversário comum no segundo turno. No entanto, esse projeto tem dois problemas. Por um lado, o cenário improvável, mas não impossível, de uma vitória de Iván Cepeda no primeiro turno.
Por outro lado, é possível que a disputa entre os dois candidatos da direita se polarize de tal forma que crie desentendimentos que vão atrapalhar a esperada soma de votos nas eleições de junho.
Uma eleição apertada
O favoritismo de Iván Cepeda não significa uma vitória garantida na eleição presidencial. Se ele não vencer no primeiro turno, ou não conseguir uma vantagem considerável para o segundo, a reeleição do progressismo enfrentaria sérios riscos. Um cenário polarizado no segundo turno poderia ser desfavorável para ele, considerando o recente intervencionismo eleitoral do governo dos Estados Unidos na região. Num contexto de polarização, ou de empate técnico entre as duas forças que disputam o poder, o governo de Trump poderia inclinar a balança. A preocupação com o recente vazamento de áudios do traficante hondurenho Juan Orlando Hernández é apenas uma manifestação desse risco.
Diante de um cenário tão incerto e arriscado, o caminho se bifurca. Uma eventual vitória da direita representaria mais um avanço da gestão Trump na região; um retrocesso imediato na garantia dos direitos sociais da classe trabalhadora e possíveis ataques às liberdades das mulheres e das pessoas LGBTQI+. No entanto, esse governo teria que enfrentar um dos movimentos sociais mais bem organizados e com maior capacidade de mobilização do continente; além disso, com lideranças que, diferente do passado, hoje conhecem o Estado por dentro.
Uma vitória de Cepeda poderia apontar para a construção de um plano de governo mais organizado, com menos improvisação, menos rivalidades internas e maior coordenação entre o presidente e sua equipe. Num contexto de guinada à direita global e regional, essa vitória do progressismo poderia criar uma nova referência para a esquerda latino-americana, mas isso exigiria uma reflexão sobre o projeto de sociedade que o novo governo pretende defender e como as reformas se encaixam nessa visão política. Não se trataria mais de um governo cuja principal tarefa é se manter, mas de um compromisso com uma reforma moral e intelectual que transforme o país. No entanto, as dificuldades na área de segurança, as finanças públicas fragilizadas, um equilíbrio de forças desfavorável no Congresso e no Judiciário, bem como um cenário geopolítico caótico, são claras restrições à ação emancipadora.
Seja qual for o resultado, o panorama do sistema político sofreu mudanças substanciais nos últimos cinco anos, em comparação com o cenário desolador do início do século.
Referências:
MOUFFE, Chantal. Agonística. Pensar el mundo políticamente. 1ª ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2014.



