Bianca Monteiro Alves[1]
Mulheres indígenas, quilombolas, ribeirinhas e agricultoras familiares de diferentes regiões do Brasil e da América Latina se reuniram para questionar os impactos dos mercados de carbono sobre seus territórios e modos de vida. O Encontro de Mulheres que Resistem aos Mercados de Carbono e Lutam em Defesa de seus Territórios promoveu análises críticas sobre projetos de REDD+ e seus efeitos nas comunidades tradicionais, fortalecendo estratégias coletivas de enfrentamento. A atividade ocorreu entre os dias 9 e 12 de setembro de 2025, no território do povo Ka’apor, na Aldeia Ararorenda, em Alto Turiaçu (MA), reunindo representantes do Acre, Amazonas, Pará, além de Bolívia, Peru, Argentina e Colômbia. A iniciativa foi organizada pelo Programa Clima e Energia da Fundação Rosa Luxemburgo, em parceria com pesquisadoras do Coletivo de Pesquisa sobre Desigualdade Ambiental, Economia e Política, o CPDA/UFRRJ e o Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais.
Mercado verde, velhas violações
O REDD+ — sigla para Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal — é apresentado por governos, empresas e organizações internacionais como uma solução para conter a crise climática. A proposta é transformar as florestas em créditos de carbono, que podem ser comprados e vendidos em mercados financeiros, compensando emissões de gases poluentes.
No entanto, para os povos e comunidades tradicionais, essa lógica representa mais uma forma de apropriação dos territórios e da natureza, agora disfarçada pelo discurso ambiental. O que se apresenta como “solução climática” acaba por reforçar relações coloniais e desiguais, transferindo para as comunidades o peso da conservação e para as corporações o direito de continuar poluindo.
“O REDD+ não traz coisas boas para as nossas comunidades”
Para Eliza Kirixi Munduruku, do povo Munduruku, territorializada na aldeia Kabarewã (MT), participar do encontro foi um momento de descoberta e fortalecimento.
“Foi a primeira vez que participei de um encontro sobre REDD+, e aprendi o que é e como ele funciona. Eu não sabia, e vi que o REDD+ não traz coisas boas para as nossas comunidades. Isso vem afetando as nossas vidas e, principalmente, a nossa floresta, que se sente muito impactada pelo crédito de carbono. É por isso que a gente não aceita qualquer tipo de projeto dentro do nosso território. “
Eliza Kirixi Muduruku destacou que o diálogo com outras mulheres de diferentes territórios foi uma das experiências mais marcantes: “Foi muito bom ouvir as outras mulheres contando o que enfrentam e poder compartilhar um pouco da nossa cultura, do nosso artesanato, das nossas produções de farinha e tapioca. Esses encontros são importantes para fortalecer nossas comunidades e ensinar o que realmente está por trás desses projetos.”
“Nossas vozes precisam ecoar”
Uma agricultora familiar, que preferiu não ser identificada por motivos de segurança já que tem sofrido ameaças em decorrência da luta dela contra um projeto de REDD+ na sua comunidade, também participou do encontro e destacou a dimensão coletiva e afetiva da experiência.
“Foi muito importante nós estarmos ali naquele território tão significativo. Cada mulher compartilhou sua dor, suas experiências e suas lutas. Foi emocionante ouvir as companheiras de outros países e perceber que não estamos sozinhas. O coletivo faz muita diferença — sozinha eu não posso fazer muita coisa, mas juntas nós conseguimos unir forças.”
A agricultora também faz um alerta: “O que há por trás do REDD+? São grandes interesses econômicos que querem lucrar com a destruição do nosso território. Para eles, parece um benefício, mas o que vem depois é destruição. É como um trator que vai passando e esmagando a gente. Se perdermos o território, perdemos nossa vida, nossa agricultura, nossa forma de viver. Hoje vivemos com o psicológico abalado por contratos que escondem armadilhas. Pessoas sendo enganadas, líderes sendo ameaçados e o povo se dividindo! Tudo em nome de um lucro que não chega e nunca vai chegar para quem sempre cuidou da floresta. Quando essas grandes empresas assumem o controle sobre as terras em nome da preservação quem sempre cuidou da floresta passa a ser tratado como INVASOR! A verdadeira solução para o clima não vem de contratos de carbono, mas da valorização de quem protege a floresta todos os dias, nós, povos e comunidades tradicionais, ou seja, o famoso mercado de carbono é a nova forma de invasão dos nossos territórios! O que eles falam que é solução climática , nada mais é que um ataque disfarçado, é o colonialismo pintado de verde. A justiça climática só será real quando os povos forem ouvidos, respeitados e livres para decidir sobre seus territórios!”
Juntas somos mais fortes
A quilombola Maria José, do Quilombo de São José do Icatu (PA), reforça o caráter internacional do encontro e o aprendizado coletivo construído entre mulheres de diferentes países.
“Foi um intercâmbio internacional muito bom. A gente pensa que só nós estamos sofrendo, mas ouvimos mulheres da Argentina, do Peru, da Colômbia e da Bolívia, e vimos que elas passam pelas mesmas dores. Aprendemos que, se estivermos unidos, jamais seremos vencidos.”
O intercâmbio reafirmou o papel das mulheres como sujeitos políticos centrais na defesa dos territórios, nas estratégias de autodefesa e na construção de novas alianças transfronteiriças.
Importância da continuidade da oficina
As três mulheres entrevistadas reforçaram a importância de que encontros como este sejam realizados novamente. Eliza Kirixi Munduruku afirmou:
“Foi muito bom ter participado deste encontro. Desejamos que esses encontros continuem acontecendo, para que possamos formar mais pessoas na nossa comunidade e fortalecer a resistência contra os projetos de REDD+.”
A agricultora familiar, que pediu anonimato, destacou:
“É fundamental que esses encontros se repitam. Quando nos reunimos, compartilhamos nossas experiências e vemos que não estamos sozinhas. A continuidade fortalece nossas vozes e nossa luta.”
Maria José, quilombola do Quilombo de São José do Icatu, acrescentou:
“Esses intercâmbios precisam acontecer mais vezes. Quanto mais unidos estivermos, mais fortes seremos. Juntas, podemos aprender umas com as outras e resistir contra os ataques aos nossos territórios.”
COP 30 e o desafio da resistência global
As discussões do encontro também se conectaram com o cenário internacional, em especial com a COP 30, que será realizada no Brasil em 2025 e tem como temas prioritários o mercado de carbono, o REDD+ e o financiamento climático. As participantes denunciaram o avanço dessas agendas sobre os territórios tradicionais e questionaram a legitimidade de políticas que transformam a natureza em mercadoria.
Para as mulheres presentes, a luta contra o mercado de carbono é também uma luta pela soberania e pela vida. A resistência aos projetos de REDD+ se soma à luta mais ampla contra o extrativismo, o racismo ambiental e o patriarcado — sistemas que se reforçam mutuamente.
A força das mulheres na defesa dos territórios
Ao final dos quatro dias de debates, trocas e articulações, ficou evidente que o encontro foi mais do que uma formação: foi um ato político e simbólico de resistência. Entre oficinas, rodas de conversa e partilhas de saberes e práticas tradicionais, as mulheres reafirmaram seu compromisso coletivo de defender seus territórios, e de recusar as falsas soluções climáticas que transformam a natureza em mercadoria.
“Enquanto tentam colocar preço em nossas florestas, nós reafirmamos que a vida não está à venda”, declarou uma das participantes durante o encerramento do encontro.
O Encontro de Mulheres que Resistem aos Mercados de Carbono, realizado no território Ka’apor, deixa um legado de formação, resistência e luta. De norte a sul, do campo à cidade, das aldeias aos quilombos fica evidente que a defesa da vida e dos territórios é fruto das múltiplas vozes e ações das comunidades, que preservam saberes, práticas e relações essenciais para a continuidade da vida em todas as suas formas.
Carta das Mulheres
Ao final do encontro, foi elaborada uma carta política assinada coletivamente pelas participantes. Nela, mulheres indígenas, agricultoras familiares e quilombolas de diferentes países da América Latina convocam organizações e movimentos sociais de todo o mundo a assinarem esta declaração, que rejeita projetos de mercado de carbono em seus territórios e reafirma o compromisso com a defesa da vida, da natureza e da autonomia dos povos.
[1] Mestranda no Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA-UFRRJ).



