A reunião de cúpula do BRICS em 2025 será realizada no Rio de Janeiro, Brasil, nos dias 6 e 7 de julho. Este será o primeiro encontro do grupo no país após o governo Bolsonaro e ocorrerá em um contexto internacional marcado pela posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, em 20 de janeiro. Diante desse cenário, o que se pode esperar do encontro?
Expansão do grupo
As duas últimas reuniões dos BRICS foram marcadas pelo processo de expansão do grupo. Inicialmente formado em 2006 e formalizado na primeira reunião, na Rússia, em 2009, por Brasil, Rússia, Índia e China, o grupo agregou a África do Sul em 2011. Nas duas últimas reuniões, na África do Sul, em 2023, e na Rússia, no ano passado, a questão da ampliação do grupo ficou explícita nos comunicados finais. Em Kazan, Rússia, foi aprovada a entrada de Argentina, Egito, Etipóia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
No entanto, apenas quatro desses países operam plenamente, já que a Argentina de Milei declinou do convite e a Arábia Saudita tem mantido uma postura de frieza em relação ao grupo. No início deste ano, sob a presidência brasileira, foi anunciada a incorporação da Indonésia como membro pleno do grupo.
Protagonismo dos BRICS e desafios internacionais
Esse processo de crescimento dos BRICS, aliado ao fato de a China ser uma economia gigante que disputa hegemonia com os EUA, coloca o grupo em uma posição de protagonismo importante. Isso realça a relevância da reunião deste ano, na qual o Brasil será anfitrião não apenas dos BRICS, em julho, mas também da COP, no final do ano. Ambos os processos são fortemente questionados pelo governo dos EUA.
O atual governo estadunidense busca herdar um discurso do governo Biden, representando o chamado “Ocidente”, a “Aliança Atlântica” ou, mais concretamente, o G7. Entretanto, a postura hegemonista e pouco afeita ao diálogo do governo Trump tem afastado parceiros, o que se mostra evidente, especialmente em relação aos países europeus e ao Canadá, membros do G7.
Limites do BRICS como representação do Sul Global
Dada a diversidade do “Sul Global”, o BRICS não consegue representar integralmente essa realidade diferenciada. China e Rússia, membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, se diferenciam por sua dimensão econômica (China) e militar (Rússia). Os demais países do BRICS são exemplos de sucesso relativo entre os países em desenvolvimento, mas não representam os menos desenvolvidos. Ademais, muitos membros do BRICS também fazem parte do G20. Quando composto por cinco países, o BRICS operava como uma fração política questionadora das posições dos EUA no G20.
Brasil e os desafios da diplomacia
O Brasil, durante sua presidência pró-tempore do BRICS, busca evitar um enfrentamento direto com Trump, o que se mostra difícil. Colocou temas como saúde, meio ambiente e governança financeira global como prioridades. No entanto, a agenda brasileira não evitará inevitáveis conflitos com os EUA, que se afastaram da OMS, da COP e já ameaçaram medidas contra qualquer mudança na ordem financeira global.
Outro ponto crítico é a facilitação do comércio, com o uso de instrumentos que permitam ampliar as trocas entre países sem depender da disponibilidade de divisas. Isso pode ser essencial para países sob sanções, como Rússia e Irã, e para aqueles com restrições cambiais, como a África do Sul. Diante desse cenário, escapar de uma polarização com os EUA é um desafio.
Multilateralismo e dilemas da integração
O fortalecimento do BRICS também levanta questões sobre os caminhos da integração regional. No primeiro governo Lula (2003-2006), a integração Brasil-Argentina foi impactada pela priorização do fluxo comercial com a China. O aprofundamento das relações com o BRICS, em especial com a China, pode reforçar um modelo primário-exportador, com impactos econômicos, sociais e ambientais. Isso pode ser negociado, mas exige estratégia.
BRICS e a transformação da ordem internacional
Os BRICS foram criados como uma alternativa a uma institucionalidade em crise. Desde 2007, a crise econômica internacional se aprofunda, acompanhada por mudanças tecnológicas e a disputa pela hegemonia entre China e EUA. Assim, a reunião de 2025 no Brasil pode ser um marco para um novo desenho institucional do grupo e do mundo, debatendo uma nova arquitetura financeira e comercial global, além da defesa da paz e da soberania.
Um futuro incerto
Os BRICS podem se tornar um ator relevante no sistema internacional se abrirem espaço para transformações. O mundo pode debater essas mudanças pelo diálogo ou pelo conflito. Atualmente, o cenário aponta para o conflito. Outros atores internacionais, como União Europeia, grandes países asiáticos, e países menos desenvolvidos da África e América Latina, podem contribuir para alternativas. Entretanto, a crise política em vários desses países reduz sua capacidade de influência.
A reunião dos BRICS no Rio de Janeiro pode ajudar o mundo a trilhar um novo caminho. Ou não. Se não conseguir avançar, o grupo pode perder relevância diante dos desafios globais. Caso consiga, pode abrir caminho para um novo sistema global. Essa possibilidade, por mais incerta que seja, deve ser explorada, apesar das dificuldades.
Adhemar S. Mineiro é economista, Assessor da REBRIP (Rede Brasileira pela Integração dos Povos).
Foto: Joanesburgo, África do Sul, 24.08.2023 – Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e presidentes dos países amigos do BRICS, posam para foto oficial após a reunião do grupo, no Sandton Convention Centre, em Joanesburgo. Foto: Ricardo Stuckert