Sob a liderança de Fidel Castro e Che Guevara, o internacionalismo e o anti-imperialismo tornaram-se pilares de Cuba desde a Revolução de 1959. A ilha historicamente ofereceu apoio militar, médico e educacional a movimentos de descolonização, especialmente na África, combatendo o apartheid, pautada pela ética, sem buscar lucros ou interesses próprios.
Hoje, no país asfixiado pelo governo de Donald Trump nos Estados Unidos, muitos cubanos se sentem frustrados com a passividade de governos que antes se beneficiavam da ajuda cubana. O medo de sanções econômicas dos Estados Unidos faz com que empresas, governos e petrolíferas recuem, restando apenas apoio retórico e ações isoladas que não resolvem a crise econômica da ilha, explica o filósofo cubano Felix Valdés.
“O governo mexicano se mostra desafiador, mas a Petrobras e a Pemex cedem à possibilidade de tarifas, sanções ou falência. A prioridade é a autopreservação”, diz ele. “O suporte real hoje vem da sociedade civil organizada e de movimentos sociais, como o MST no Brasil. É essa base popular que mantém vivo o apoio concreto e dá forças ao povo cubano para defender sua soberania.”
Valdés falou ao Brasil de Fato durante a conferência Saída pela Esquerda, organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo em meados de maio. Leia abaixo:
Brasil de Fato: Qual a importância do internacionalismo para Cuba neste momento de pressão de Trump?
Felix Valdés: Quando penso em internacionalismo, noções com as quais cresci e temas que estudei posteriormente ressoam em mim. Aprendemos que o capitalismo, com sua produção de bens graças à Revolução Industrial — em grande parte viabilizada pela riqueza acumulada por meio do colonialismo na América Latina e no Caribe —, gerou lucros e mais-valia crescentes, dando origem a uma classe social: os trabalhadores, o proletariado.
Essa classe compartilharia características semelhantes e interesses comuns; portanto, não importava se estivesse em Manchester, no Reino Unido, em Lyon, na França, ou no norte industrializado dos Estados Unidos: estaria sempre unida pelo mesmo propósito de emancipação, superação e aniquilação dessa realidade por meio da revolução. Karl Marx e Friedrich Engels lançaram o lema: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”.
Para a própria Rosa Luxemburgo, era inútil exaltar peculiaridades polonesas, ucranianas ou lituanas dentro do movimento operário. A revolução proletária seria universal, não local. Assim, a classe trabalhadora, como classe universal, deve abraçar o internacionalismo como princípio fundamental, transcendendo nacionalismos estreitos.
Essa ideia tornou-se um mantra que eu sempre ouvia. O internacionalismo, com o qualificativo proletário, tornou-se um princípio da política internacional dos então países socialistas, algo que hoje poderia ser alvo de críticas, mas que era defendido como condição fundamental.
Em grande medida, esquecemos ou retiramos essas palavras do nosso vocabulário; elas partiram carregando seu próprio peso semântico. Mas nos resta a ideia de internacionalismo como solidariedade, que é uma atitude legítima e um sentimento presente em muitos povos e governos ao redor do mundo, e que é urgentemente necessária hoje.
E, para Cuba, neste momento, em tempos de tanta incerteza, tanta fragilidade e de sequestro da segurança internacional e do respeito à soberania, em tempos de uma avalanche de informações que busca sitiar e fomentar o medo, devemos reunir coragem coletiva e discernir o que é essencial. Não há razão para aceitar narrativas falsas, esquecer a história ou justificar interesses espúrios, como os que estão sendo engendrados nos Estados Unidos por meio de boatos, notícias manipuladas para confundir e matrizes de informação que apenas provocam medo e desmobilizam, aproveitando-se de algoritmos para travar essa guerra de desinformação.
Portanto, o internacionalismo, entendido como solidariedade, deve ser um princípio de ação coletiva. Não podemos confrontar o capitalismo, o mesmo imperialismo de sempre — aquele que, desde 1898, deixou clara a arrogância ianque no hemisfério — se agirmos em isolamento e silêncio. Governos e organizações de esquerda devem assumir a liderança e colocar esse valor, esse princípio, em prática. Abandonar Cuba é descartar um dos mais altos valores morais da esquerda continental e global.
Qual a importância do internacionalismo para a história da Revolução Cubana?
O internacionalismo, entendido como solidariedade, tem sido um dos valores mais autênticos praticados em Cuba em relação ao mundo. Desde o próprio triunfo da revolução, esse princípio foi visto como um pilar da ética e da prática revolucionárias.
Considere a Revolução Argelina, sua contraparte no continente africano, que recebeu apoio cubano desde o início da Revolução Cubana. O apoio também foi estendido aos movimentos de descolonização na África e na Ásia. Já em 1959, Che Guevara viajou por países da África e da Ásia, visitando Argélia, Gana, China, Vietnã e, posteriormente, o Congo.
Em todos esses países, o princípio da solidariedade e do apoio foi posto em prática, juntamente com a presença quando urgentemente necessária, tanto em conflitos armados quanto no auxílio às vítimas de desastres naturais. Chile, Venezuela e Nicarágua testemunharam a solidariedade e a ajuda altruísta de Cuba, embora hoje alguns tentem atribuir-lhe interesses mesquinhos, sempre buscando enxergar o mal.
O internacionalismo tornou-se um pilar fundamental, juntamente com o anti-imperialismo e a solidariedade aos países do Terceiro Mundo. Ao longo dos anos, tornou-se um valor cultural. Fomos ensinados a esquecer os interesses pessoais, a dar o que temos, não o que sobra, porque, em Cuba, nada jamais foi em excesso.
Há um famoso discurso de Che Guevara em Argel, em 1965, no qual ele exige precisamente aquilo que deveria ser o internacionalismo praticado pela URSS, que, em sua visão, precisava superar suas deficiências naquele momento. Para Che, em particular, se esse valor fosse esquecido, a revolução se tornaria “uma letargia confortável”, explorada pelo imperialismo.
É por isso que, neste momento, ele é algo necessário, bem como algo que está em falta ou sobre o qual se sussurra, quando deveria ser gritado aos quatro ventos. É urgente que os governos do mundo intervenham em favor de Cuba, não apenas individualmente, mas também institucionalmente.
O que a população cubana pensa disso?
A caminho do Brasil, o taxista que me levava ao aeroporto de Havana disse enfaticamente: “Onde está toda a África? Onde estão os pequenos Estados caribenhos? Onde estão os governos latino-americanos?”. Com justa indignação, ele se perguntava por que não se unem e desafiam essa suposta “ordem internacional” em crise e as ordens executivas do governo de Donald Trump.
“Por que não se rebelam contra essa chantagem?”, perguntou. E, em sua veemência, compreendi que essa era talvez uma das questões a serem abordadas abertamente, precisamente diante dos líderes e representantes de partidos e organizações de esquerda na conferência.
Por que Cuba escolheu o internacionalismo?
Cuba escolheu o internacionalismo, a solidariedade e a convicção ética, e não o interesse próprio. Como diria Fidel, Cuba deixou a África e só trouxe de volta os soldados que caíram na luta contra o apartheid.
Milhares de médicos, professores, técnicos e soldados cubanos ofereceram sua ajuda altruísta, não mensurada pelo ganho financeiro, e muitos deles deram suas vidas ali, nos lugares para onde foram.
Como os países amigos estão ajudando Cuba hoje?
A ajuda solidária é escassa, talvez não tanto quanto se esperava. Interesses econômicos, medo e egoísmo individual dominam o cenário. A ideia de sucesso pessoal triunfa. O objetivo é fomentar a amnésia, o esquecimento, recorrendo a narrativas falsas.
Hoje, nenhuma empresa está disposta a sacrificar seus lucros para se aliar a Cuba e abrir mão da possibilidade de lucrar. Elas preferem não ser punidas por bandidos locais e, por isso, encerram suas operações com Cuba ou decidem esquecer que o petróleo que vendiam ao país era indispensável.
Além de posicionamentos críticos no discurso, não há ações concretas para enfrentar a situação. Não será um navio russo que resgatará a ilha de sua crise interna e da asfixia a que está submetida, considerada um ato de genocídio. O governo mexicano se mostra desafiador, mas a Petrobras e a Pemex cedem à possibilidade de tarifas, sanções ou falência. A prioridade é a autopreservação.
Na sua opinião, até onde esses países, críticos a Trump, vão desafiar as ordens do presidente estadunidense?
Sim, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, é admirável. Ela não perde tempo em denunciar a situação e oferece apoio inabalável, mantendo-se fiel à política externa mexicana, que sempre foi solidária ao povo cubano. Quando participou do fórum de Barcelona convocado por Pedro Sánchez e Lula, foi a primeira a sugerir a condenação das ameaças contra Cuba.
No entanto, os organizadores não convidaram nenhum representante cubano, como se Cuba não estivesse mais entre os países que podem ser considerados progressistas. Agora, são eles que mandam, e Cuba fica de fora.
Outros países apoiam essa postura em sua retórica, mas nenhum petróleo entra nos portos cubanos.
No entanto, a solidariedade dos grupos e organizações da sociedade civil, dos mexicanos e, em particular, do MST, é uma fonte de encorajamento, uma fonte de força apreciada por todos os cubanos. E isso se sente nas ruas, nas expressões mais sinceras do povo. Isso dá coragem. Mas insisto: trata-se de garantir um valor fundamental — a soberania de Cuba, algo conquistado com tanta luta ao longo da história e que hoje está por um fio, sujeito à vontade imperialista e aos interesses geopolíticos do governo dos Estados Unidos. E tudo isso acontece diante dos olhos do mundo.




