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PREFÁCIO

O livro que você tem em mãos é, à primeira vista, um livro sobre transporte: público e privado, em massa e individual, o fetichismo da velocidade, o elitismo do automóvel. Mas a leitura aqui construída vai muito além da análise crítica de como nos locomovemos. Dada a dimensão estruturante que o transporte tem em nossas cidades, em nossos trabalhos e, em última instância, em nossas vidas, este livro é, na verdade, sobre que tipo de sociedade criamos ao longo das últimas décadas e que tipo de sociedade queremos para as próximas. É um livro que nos oferece possibilidades.

A estrutura de poder do trânsito

Planka.nu. — 1. ed. — São Paulo : Fundação Rosa
Luxemburgo, 2020.
Título original: The traffic power structure
Vários tradutores
Vários ilustradores
ISBN 978-65-990744-1-7
1. Acessibilidade urbana 2. Automóveis – Aspectosambientais 3. Automóveis – Aspectos
sociais 4. Mobilidade urbana 5. Transporte automotivo 6. Trânsito urbano 7. Trânsito
– História I. Título

 

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A hegemonia do automóvel como meio de transporte e como símbolo da ideologia neoliberal é destrinchada e colocada em xeque, ao mesmo tempo que se desenha um mundo no qual nos é permitido viver com mais calma e com menores distâncias a serem percorridas.
Este é um livro que oferece várias perguntas, mas poucas respostas. Em parte, porque não há um modelo de mobilidade que vá gerar de forma automática uma sociedade melhor. Mas, em parte também, porque a emergência de uma sociedade melhor se dá por meio de construção coletiva e não por respostas prontas.
A oposição entre coletivismo e individualismo permeia toda a obra. E não sem razão, uma vez que foi escrita pelo Planka.
nu, um grupo sueco de origens anarcossindicalistas. Surgida em protestos contra o aumento da tarifa em 2000, a organização luta em seu país por um transporte coletivo gratuito, controlado por trabalhadoras(es) e usuárias(os).
Com ações consistentes ao longo dos últimos vinte anos, o Planka.nu é mais conhecido pela criação de um fundo de incentivo ao não pagamento da passagem do transporte público, chamado de P-Kassa. Na Suécia, os ônibus não possuem catracas e sim fiscais que sobem e descem dos coletivos conferindo se todos os passageiros possuem bilhete. Quem é pego sem, é multado – em um valor, inclusive, maior que a multa recebida por motoristas que estacionam em local proibido. Mas quem contribui com o fundo do Planka.nu não precisa se preocupar, pois a multa por estar sem a passagem será coberta pela organização. Basicamente, com um pequeno pagamento mensal você ganha um passe livre nos ônibus.

 

EVENTO DE LANÇAMENTO

 

O grupo, como era de se esperar, é bastante criticado por políticos e empresários. A ideia de que o transporte é um direito social e, como tal, deveria ser pago pelo conjunto da sociedade e não apenas por suas usuárias e usuários deveria ser óbvia em uma social-democracia forte como a da Suécia. Entretanto, mesmo lá, o entendimento de que até a vida dos motoristas de carro seria melhor com transporte público gratuito parece distante dos principais atores políticos e econômicos.
A realidade sueca, inclusive, se mostra bastante presente no livro, com exemplos que envolvem a retirada de neve das ruas após uma tempestade, a construção de trens de alta velocidade e a integração da União Europeia. Tudo isso parece estar distante de nós, brasileiras e brasileiros, que temos demandas sociais tão diferentes e por vezes tão urgentes.
Essa distância não precisa ser esquecida ou ignorada por quem lê o livro. Ela se insere como parte do problema global das desigualdades entre Norte e Sul, centro e periferia e outras hierarquias sociais das quais a estrutura de poder do trânsito se vale ou retroalimenta, seja nas realidades locais, seja em escala mundial. Porém, a visão estruturante trazida pelo livro nos ajuda a compreender como a automobilidade controla nossos corpos, cria instituições autocráticas e serve à ordem neoliberal – e sua discussão, talvez, seja até mais importante em um país em desenvolvimento.
O livro conta com um capítulo escrito por nós, do Tarifa Zero BH, com o objetivo de trazer a discussão à realidade brasileira, às particularidades de nossas metrópoles e ao nosso histórico de construção política das decisões sobre transporte. Não longe do próprio Planka.nu, realizamos um processo coletivo de tradução da edição em inglês e também da escrita do último capítulo desta edição brasileira. A tradução contou com um diálogo constante com membros do grupo sueco, além de etapas de discussão dos conceitos e revisão por pares. Um processo que, acreditamos, trouxe mais consistência a uma visão brasileira da obra.
O Tarifa Zero BH nasceu do caldo das jornadas de junho de 2013 e, desde então, vem atuando na luta para retomar e reinventar a cidade, por meio de um transporte justo, de qualidade, com gestão democrática e gratuito. O que inicialmente era uma campanha por um projeto de lei popular pela gratuidade do transporte em Belo Horizonte se tornou um movimento horizontal e autogestionado perene, com uma atuação que vai muito além das lutas contra o aumento anual da passagem de ônibus e se consolida em uma série de ações que visam trazer para o campo da política – retirando do falacioso campo puramente técnico – as decisões sobre o transporte público no município.
Não há decisão técnica que não traga um posicionamento político em si quando pensamos a cidade.
E nós, do Tarifa Zero BH, não estamos sozinhos: há movimentos e atores em diversas partes do país se articulando com objetivos similares. Foi no Seminário Internacional Transporte como um Direito e Caminhos para a Tarifa Zero, evento que reuniu vários desses grupos, organizado pela Fundação Rosa Luxemburgo em setembro de 2019, que conhecemos o Planka.nu, convidado para falar sobre sua experiência. Entre suecos e brasileiros, de realidades tão distantes, a identificação foi imediata, pois a necessidade de se repensar um modelo de sociedade que não parta do individualismo representado pelo automóvel não tem fronteiras. A luta pelo transporte público une as pessoas de várias formas.
Decidimos realizar a tradução deste livro por acreditar que a doentia estrutura de poder do trânsito e seus impactos em nossas vidas evidencia parte de nossa luta diária. Com ela, buscamos também refletir, coletivamente, sobre uma sociedade que acreditamos poder ser construída: mais justa, igualitária, acessível e democrática.
Esperamos que a leitora e o leitor possam também vislumbrar as possibilidades aqui pinceladas e, da próxima vez que andar de ônibus, metrô, bicicleta ou a pé, sonhar com uma cidade diferente.

TARIFA ZERO BH – BELO HORIZONTE, JUNHO DE 2020

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