O caminho comunitário da construção coletiva

Sob a inspiração dos ideais de Rosa Luxemburgo, coletivo de jovens da periferia de São Bernardo do Campo cria biblioteca itinerante para moradores do bairro

 

Christiane Gomes

Um espaço sem opções de lazer e sociabilidade, onde imperam igrejas neopentecostais e bares. Esta é a realidade da maior parte dos bairros periféricos das grandes cidades brasileiras. No Jardim do Lago, em São Bernardo do Campo, região do grande ABC, em São Paulo, não é diferente. Mas um grupo de jovens decidiu construir outras possibilidades que sigam o caminho comunitário da construção coletiva e criaram o projeto da biblioteca itinerante Rosa Luxemburgo.

“Quando falamos comunitário defendemos a volta das práticas humanas coletivas do ser social, indo na contramão da individualidade para que possamos nos preparar para um momento de ruptura com o capital. Quando levantamos o nome de Rosa Luxemburgo entendemos que o momento é de dialogar com o povo e falar que é possível vivermos em uma outra sociedade, sem exploração, sem machismo, racismo e classes”, conta integrantes do Coletivo Resistência ABC que organizaram a iniciativa.

A biblioteca está localizada na praça do Detroit e funciona da seguinte maneira: todos os domingos (se não chover) parte da comunidade se mobiliza e, coletivamente, monta a biblioteca, reutilizando caixotes de feira para abrigar os livros. A praça é então decorada com frases que remetem à processos de emancipação; estêncil e placas feitas de materiais recicláveis são colocadas no espaço que já conta com grafites permanentes com a imagem de Rosa Luxemburgo, Carlos Marighella (que lutou contra a ditadura militar no Brasil) e Angela Davis (escritora e ativista negra estadunidense).


A aceitação da comunidade com a biblioteca foi algo que surpreendeu o coletivo. Antes da inauguração, foi realizada uma panfletagem na região que já demonstrou o interesse de moradores e moradoras na iniciativa. O coletivo conta que no dia da inauguração, muitas pessoas de dispuseram a ajudar na montagem e desmontagem da biblioteca além de propor atividades temáticas para as crianças. “Muitas pessoas se mostraram interessadas em saber quem foi Rosa Luxemburgo. Ouvimos alguns relatos bem interessantes, por exemplo, uma criança nos falou que estava aprendendo muito mais coisas lá do que na escola. Uma senhora disse que normalmente passava as tardes sozinha assistindo televisão em casa, e que agora teria a alegria de passar as tardes na praça”.

E por que a revolucionária polaco alemã foi a escolhida para nomear esta biblioteca? “Rosa Luxemburgo nos inspira, pois sua luta contra os oportunistas e reformistas foi grande e estamos vivendo isso novamente. Por isso precisamos combater as falsas ideologias teóricas. Criar uma via não institucionalizada e revolucionária. Existe uma dialética que enxergamos em Rosa Luxemburgo, que é a de respeitar as lutas espontâneas das massas e ao mesmo tempo se organizar na práxis revolucionária. Ou seja, nosso modo de organização comunitária é horizontal, mas organizado. E isso está longe de ser uma contradição”.

 

 

 


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