PDF grátis: CARtoons – Atropelando a ditadura do automóvel”

A Fundação Rosa Luxemburgo – Brasil e Paraguai disponibiliza para  livro CARtoons – Atropelando a ditadura do automóvel” para download gratuito. Na publicação, o cartunista Andy Singer traz de forma lúdica uma crítica à sociedade contemporânea, altamente dependente do carro. Ou, como denomina o autor, “viciada em carro”. O livro foi editado em uma parceria entre a FRL e a editora Autonomia Literária.

 

CARtoons – Atropelando a ditadura do automóvel

de Andy Singer

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Veja como foi o lançamento do livro em 2018

 

Prefácio

Despedace esse livro

Por Daniel Santini*

Arranque as páginas desse livro e espalhe por aí. Talvez o pessoal da editora Autonomia Literária, que tem um capricho quase obsessivo na edição, não goste muito da ideia de ver picotada a primeira publicação do Andy Singer no Brasil. Mas, se você está lendo essas linhas, é porque ou alguém pulou essa parte na hora de revisar, ou porque eles têm confiança de que, se seguir esse conselho, você vai acabar comprando mais um exemplar.

Seja como for, não deixe esse livro congestionando uma estante. Empreste, dê de presente, doe, largue no banco da praça, na padaria, na bicicletaria mais próxima. O Singer desenha desde pelo menos 1992 e nunca tinha sido publicado aqui. O cara é um monstro, não só pelos traços únicos e estilo inconfundível, mas também por sua abordagem inteligente, direta, ácida e bem humorada.

O conjunto que você tem em mãos reúne os originais do livro CARtoons, cuja primeira edição é de 2001, além de trabalhos mais recentes da série NO EXIT, que ele segue publicando até hoje. Aqui estão os CARtoons clássicos junto com novas caricaturas que explicitam o ridículo das propagandas corporativas sobre a “sustentabilidade” da sociedade do automóvel. Singer questiona as novas “soluções” tecnológicas da indústria e, de um jeito cru e sarcástico, destrói o marketing ambiental construído ao redor da produção de etanol, gás fracking e hidrogênio, explicitando seus impactos. Seus CARtoons são mais atuais do que nunca e, mesmo vivendo e desenhando nos Estados Unidos, seu trabalho tem um caráter universal.

As megacidades do mundo são cada vez mais parecidas, em uma repetição padronizada e sem graça de avenidas entupidas, postos de gasolina, concessionárias, estacionamentos… Falta espaço para a vida. Rabiscando, Singer faz  política. Com seus questionamentos à lógica privada do automóvel, coloca em questão o próprio conceito de ordem e progresso. Seus desenhos fazem pensar sobre ideias naturalizadas como “desenvolvimento”, explicitam os limites dos modelos econômicos adotados nas últimas décadas – tanto por capitalistas quanto por socialistas – baseados na motorização e no consumo em massa.

No Brasil, infelizmente, o contexto em que o livro chega não poderia ser mais apropriado. A fabricação de automóveis disparou na última década e, impulsionada por generosas políticas de isenção de Impostos sobre Produtos Industrializados (IPI), manteve ritmo acelerado mesmo durante períodos de crise. Desde 2007, as indústrias produzem pelo menos dois milhões de novos carros, veículos comerciais, caminhões e ônibus por ano, segundo informações da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores. Nunca antes na história do Brasil as indústrias do setor produziram tanto. Em 2012, foram nada menos do que três milhões e 800 mil veículos novos no mercado! Embora a crise política, econômica e social de 2016 tenha afetado o setor, a produção se manteve acima do patamar alcançado em 2007 de mais de dois milhões de carros fabricados [o texto original foi publicado em dezembro de 2017; desde então a produção de veículos automotores só cresceu, chegando a praticamente três milhões de unidades produzidas em 2019, com diminuição de ritmo somente em 2020 em função da desaceleração da economia forçada pela crise do COVID-19].

Em um contexto de lobby permanente por políticas que favoreçam a indústria, é sintomático que seja mais fácil encontrar dados detalhados relacionados à produção de veículos do que estatísticas precisas de mortos e feridos no trânsito. Segundo o Ministério da Saúde, mais de 40 mil pessoas morreram anualmente em ocorrências com veículos entre 2010 e 2014. Em 2015, data do último levantamento divulgado, foram contabilizados 37.306 mortos e 204.000 feridos hospitalizados. [o banco de dados do DATASUS foi atualizado depois da publicação do texto e agora conta com informações de 2016, 2017 e 2018 – em todos os anos, o número de mortos no trânsito se manteve acima de 30 mil mortos por ano]

Os dados não batem com os registros do seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre, o DPVAT, que apontam que a média de mortos entre 2010 e 2014 foi superior a 50 mil por ano, chegando a mais de 60 mil em 2012 (sim, o mesmo ano do recorde histórico da produção de automóveis). Em 2015, o DPVAT registrou 42.500 indenizações por morte e 515.750 por invalidez em ocorrências de trânsito (isso para falar apenas das mortes e ferimentos diretamente relacionados a colisões e atropelamentos; simplesmente não há dados sistematizados de ocorrências indiretamente relacionadas aos impactos da multiplicação de motores, tais como as doenças relacionadas à poluição do ar, que afetam principalmente idosos e bebês).

São números de uma guerra – para comparação, em 2015 a estimativa é de que 55 mil pessoas morreram na Guerra da Síria. Não é por acaso que no final de 2016 a Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) solicitou que os prefeitos eleitos e reeleitos no Brasil mantivessem os limites das vias urbanas menores ou iguais a 50 km/h, um recado direto para o novo prefeito de São Paulo, João Dória Jr. (PSDB), eleito com um programa de governo batizado“Acelera São Paulo”. Como se tivesse saído de um quadrinho de Singer, Dória Jr. simplesmente ignorou todos os levantamentos que relacionam a redução da velocidade à redução do número de mortos e feridos , e anunciou em 25 de janeiro de 2017, aniversário da cidade, o programa “Marginal Segura”, ampliando a velocidade das duas principais avenidas da cidade, as vias que margeiam os rios Tietê e Pinheiros. Isso, Marginal SEGURA.

Explicitar absurdos por meio do humor é a essência da arte de Andy Singer e, na nova São Paulo acelerada ou em outras capitais congestionadas por automóveis do Brasil, quem ler esse livro certamente encontrará pessoas e situações bastante reais. A identificação é imediata, seja nos argumentos de carroólatras que pretendem impor suas necessidades individuais de transporte motorizado em detrimento do bem coletivo, seja nas distorções feitas no planejamento urbano para abrir espaço para mais carros. Mais avenidas, túneis, pontes e viadutos, asfalta-se tudo para tentar resolver engarrafamentos cada vez mais constantes. Bairros são destruídos, pessoas empurradas para mais longe, as distâncias se alargam. A necessidade de deslocamentos se multiplica e, logo, cria-se mais trânsito, em um ciclo infinito de asfalto. Ampliar avenidas para combater congestionamentos é o mesmo que combater a obesidade afrouxando o cinto.


Para além da crítica, Singer apresenta uma proposta de vida mais simples e tranquila. Dá voz a uma cena cultural anticarro repleta de bicicletas e pessoas caminhando, onde cabe diversidade, criatividade e bom humor.

Sua arte é uma forma de resistência ao marketing corporativo, à apologia à um instrumento para tentar abrir um pouco a cabeça dessa gente careta e quadrada, e mostrar que outros modos de vida e mundo acabar da quadrinho favorito e reproduza no muro da sua casa. Deixe uma página do lado do caixa na padaria, embaixo da porta dos seus vizinhos. Ou dê o livro inteiro para alguém querido. Ou para alguém odiado. Ou, se você mora em São Paulo, para o seu vereador machista favorito que coleciona fuscas e adora falar mal de bicicletas.

Ou ainda tire cópias de alguns trechos e espalhe por aí – o próprio autor autoriza a reprodução gratuita para atividades sem fins lucrativos com o propósito de combater carros e avenidas! Mesmo considerando que é o primeiro livro do Andy Singer no Brasil, que é uma edição histórica, e todo esse blábláblá de colecionador, não deixe esse livro parado congestionando uma estante. Seus CARtoons são ativos e não merecem ficar estacionados.

*Daniel Santini é alérgico a congestionamentos e admira grupos de ativistas que pintam faixas de pedestres e sinalização indicando redução de velocidade e compartilhamento de via. De junho de 2010 a abril de 2013 manteve o blog Outras Vias, onde escrevia sobre bicicletadas, iniciativas anticarro e ações em favor do transporte público coletivo no Brasil. Em 2012 viajou todo o trecho não asfaltado da Transamazônica de bicicleta na expedição Cicloamazônia. Hoje, atua como coordenador de projetos da Fundação Rosa Luxemburgo.

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