Johanna Ortega é a única representante do campo político na atual Câmara dos Deputados do Paraguai
Para vencer a direita, esquerda do Paraguai deve apostar em construção de frente ampla, diz deputada
26/05/2026
por
Rodrigo Durão Coelho – Brasil de Fato

A esquerda paraguaia está enfraquecida e sub-representada. Para enfrentar o domínio político da direita, representada pelo tradicional Partido Colorado, o setor progressista deve formar uma frente ampla que inclua a centro-direita, diversos partidos de centro e até setores dissidentes e críticos da própria legenda conservadora que domina a política do país há muitas décadas.

Essa é a opinião de Johanna Ortega, única deputada de esquerda na atual Câmara paraguaia. No Brasil para participar da conferência “A Saída é pela Esquerda – Good Night, Far Right”, ela falou ao Brasil de Fato sobre os desafios do campo progressista, o enraizamento do Partido Colorado na identidade cultural do país e sua aliança atual com a extrema direita global.

Ortega explicou ainda como se deu o golpe de Estado de 2012, que derrubou o único presidente de esquerda da história do Paraguai, Fernando Lugo, e suas consequências para o país, além de comentar as iniciativas estadunidenses para ampliar sua influência no Paraguai.

Além de uma coligação plural, Johanna Ortega defendeu a volta às bases como forma de fortalecimento da oposição ao governo do presidente Santiago Peña.

Leia a entrevista abaixo:

Brasil de Fato: Como você vê o cenário político do Paraguai agora? A esquerda é muito pequena e há a hegemonia do Partido Colorado. Como enfrentar isso?

Em primeiro lugar, viemos de uma década importante de aglomeração e agrupamento da esquerda em um bloco, uma coalizão chamada Frente Guasú, que durou pouco mais de 10 anos. Hoje, a principal dificuldade que temos para enfrentar essa hegemonia colorada é a falta de um agrupamento, um bloco de esquerda que possa fazer frente.

A esquerda não está apenas sub-representada hoje — e digo representação não só no Congresso Nacional, mas também em governos locais e regionais — mas, além disso, perdeu uma ferramenta importante que era a de uma coalizão permanente como a Frente.

Obviamente, enfrentar essa hegemonia e essa maioria hoje — que não é apenas colorada, mas especificamente de um setor liderado pelo ex-presidente Horacio Cartes, o movimento Honor Colorado — requer uma articulação como a que tivemos, mas também alianças mais amplas.

E não falo apenas de alianças eleitorais ou somas que já fizemos no passado. Com o governo Lugo, chegamos ao poder com uma aliança eleitoral com o Partido Liberal, mas aquilo foi uma soma eleitoral. Hoje, devido à força do poder que o movimento Honor Colorado possui, exigimos alianças políticas mais amplas.

Com quem seriam essas alianças?

Além da articulação necessária entre setores de esquerda, precisaríamos de alianças com setores como o Partido Patria Querida (que se diz de centro-direita, mas a meu critério é de direita). Alianças eleitorais já estão sendo testadas, mas alianças políticas ainda não ocorrem no plano institucional.

Alianças com a centro-direita, com o Partido Liberal, conversas sérias com setores democrata-cristãos, e eu diria até com alguns setores do Partido Colorado, que hoje são bastante críticos. O Partido Colorado, por estatuto, não pode fazer alianças eleitorais, mas falo de alianças políticas no sentido estratégico.

O Partido Colorado trabalhou por muito tempo a identidade do paraguaio; ele está na identidade do Paraguai. Então, precisamos conectar não com as cúpulas, mas com as bases coloradas. Precisamos de um nível de conexão com as bases, com as “seccionais” (organizações de base), com seus presidentes. Muitos deles entram em contato comigo e com outros parlamentares da oposição. É importante ouvir quem representa esse setor, pois eles são a maioria no Paraguai. A esquerda paraguaia nunca teve partidos de massa.

Por quê?

Creio que porque esse espaço foi ocupado pelo Partido Colorado e pelo Partido Liberal. O que sobra da população nunca conseguiria se converter em “massa” sem um processo similar ao do Morena (México), por exemplo. Nem mesmo a Frente Guasú em seu melhor momento foi uma coalizão de massas; os partidos de esquerda no Paraguai sempre foram partidos de quadros, fruto da luta contra a ditadura. Precisamos conectar com o colorado que está farto de seus próprios governos, que são governados por cúpulas e não pelo povo colorado.

A experiência de Lugo terminou com um golpe em 2012. O que esse golpe representou para a esquerda?

Para a minha geração, que não estava na liderança do governo, mas nas juventudes organizadas, o golpe significou que a nossa democracia falhou no mínimo, no procedimental. Uma democracia liberal como a paraguaia fracassou ao não conseguir sustentar o único governo alternativo ao Partido Colorado em 70 anos.

Isso mostra a forma de fazer política da cúpula colorada (especificamente a cartista), que provém do “stronismo” (ditadura de Stroessner). Eles não têm convicção democrática; usam a democracia como ferramenta para se perpetuarem. Quando perdem, a democracia não vale mais nada para eles.

Isso quebrou a esperança do povo de que podemos escolher algo diferente e ter essa vontade respeitada. Recuperar-se disso leva tempo e o medo ainda é latente. Hoje, a única garantia que o Paraguai tem (diferente do Equador, por exemplo) é que o Tribunal Eleitoral ainda garante a realização das eleições a cada 5 anos. O resto — Judiciário, Executivo, Congresso, Controladoria e Ministério Público — está todo dominado pelo mesmo setor.

Qual a importância de um evento como este para debater como combater a direita?

Vivemos um momento de falta de articulação democrática que se replica na região e no mundo. A direita, na última década, foi muito eficiente em se articular. Antes, o Partido Colorado não tinha vínculos com um Orbán ou um Trump. Hoje, a direita paraguaia está perfeitamente alinhada com eles. Precisamos de redes mais fortes e sustentáveis que as deles para enfrentar este neofascismo global.

Como repercutiu entre a população paraguaia a lei que permite que soldados e contratistas dos EUA no Paraguai sejam sujeitos apenas às leis americanas?

Isso foi debatido no Congresso, mas, sinceramente, as necessidades diárias do povo paraguaio (trabalho, inflação) não permitem que eles ocupem tempo debatendo algo que é uma ingerência direta dos EUA. O debate sobre esses acordos continua sendo algo de uma elite privilegiada que tem tempo para fazer política.

Isso é grave. Estamos falando de acordos que permitem que contratistas dos EUA não respondam à justiça paraguaia em casos de acidentes de trânsito ou até violações de direitos humanos. É uma cessão absoluta de soberania que a maioria da cidadania nem sequer tem consciência.

O que a esquerda está fazendo de concreto agora para combater a direita?

Estamos em um ano eleitoral. Tenho esperança de que o sucesso em alianças eleitorais abra caminho para alianças políticas para 2028. Em Assunção, por exemplo, conseguimos reduzir 22 listas para apenas 4, unificando o voto opositor.

Se olharmos os números, Santiago Peña e a maioria colorada no Congresso foram eleitos com menos de 30% da população. O problema é que o resto das forças democráticas está disperso. Nosso objetivo nas municipais de 2026 é ganhar pelo menos 100 das 214 prefeituras e garantir as três principais cidades.

Eu e a senadora Esperanza Martínez somos as duas únicas representantes de partidos de esquerda eleitas em 2023. Estamos conversando sobre a possibilidade de unificar dois ou três partidos, um processo de concentração de forças como ocorreu na Colômbia.

Precisamos ser autocríticos: a geração anterior criou muitos partidos por personalismo ou disputas de liderança. Minha geração não pode repetir isso. A ditadura deixou a oposição dividida, enquanto os colorados se reagruparam rápido. Precisamos parar de aprofundar diferenças e trabalhar nas coincidências. Não digo um partido único, mas caminhar para uma concentração de forças, talvez com correntes internas como o PT no Brasil, para sermos eficientes na articulação política.

Editado por: Thaís Ferraz

A deputada federal paraguaia Johanna Ortega
A deputada federal paraguaia Johanna Ortega | Crédito: /Reprodução/Facebook/Johanna Ortega

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