Raça e classe influenciam no grau de exposição ao coronavírus

 

O alerta foi dado pelo diretor da ONG SOS Racismo, em Portugal, Mamadou Ba, durante o primeiro encontro virtual Migração e Racismo em Tempos de pandemia

Ainda que o Coronavírus seja uma ameaça humanitária global, ele afeta de forma desigual diferentes grupos sociais. O diretor da ONG SOS Racismo, em Portugal, Mamadou Ba, alerta que o grau de exposição a doença pode variar não só por condições econômicas como também por motivos raciais.

Mamadou participou do primeiro bate-papo de série promovida pela Fundação Rosa Luxemburgo sobre “Migração e Racismo em tempos de pandemia”. Os encontros foram realizados nos dias 7 e 21 de maio. “Com os encontros virtuais tivemos a oportunidade de internacionalizar o debate sobre a situação dos migrantes e a luta antirracista. Já que não podemos estar juntos, abrimos para a participação de pessoas de outros países”, explicou o diretor do escritório da FRL – Brasil e Paraguai, Torge Loeding.

O ativista português destacou que os migrantes e as pessoas racializadas “se tornaram a carga para o canhão de sustentação da máquina econômica. Elas não podem parar de trabalhar porque senão morrem de fome. Não podem aspirar outro trabalho porque estão precarizadas laboralmente”.

RAÇA E CLASSE

Ba se referiu a situação em Portugal. Esta realidade, no entanto, é semelhante a do Brasil, onde o desemprego cresceu em todas as regiões, intensificado pelo avanço do coronavírus. A perda de renda, o contágio e mortes são mais altas, no entanto, entre as população mais empobrecida e negra.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o país terminou o primeiro trimestre de 2020 com 1,2 milhão de pessoas a mais na fila do desemprego. Ainda segundo o instituto, os trabalhadores informais foram os mais afetados: 3,7 milhões perderam suas ocupações, o que representa 76% das 4,9 milhões de ocupações totais perdidas.

Representando a ONG Missão Paz, no Brasil, Letícia Carvalho, esteve presente no primeiro e no segundo dia de debates. A assessora de Advocacy avaliou que o grande fator de risco no Brasil já não é mais a idade ou doenças preexistentes, mas a classe social.

O risco de morrer por coronavírus pode ser dez vezes maior para as pessoas que vivem nas regiões com os piores indicadores de qualidade de vida e de desenvolvimento humano na cidade de São Paulo. Os dados constam no boletim epidemiológico da prefeitura da capital, de maio deste ano. 

Carvalho destacou ainda que o racismo estrutural, através do próprio aparelho do Estado, também deixa suas marcas e faz com que esse crime se perpetue. Dados divulgados Ministério da Saúde em maio, aponta que pretos e pardos compõem a maioria das pessoas mortas por Covid-19 no Brasil. 

O mediador do primeiro encontro e coordenador de projetos da FRL – Brasil e Paraguai, Daniel Santini, ressaltou que esses dados refletem a desigualdade social e econômica do país.

REFUGIADOS

Presente no segundo dia de debate, a diretora da Fundação Rosa Luxemburgo na Grécia, Maria Oshana, contou que o isolamento social está garantido para a população grega. Os migrantes e refugiados, por outro lado, seguem sem condições econômicas e sociais de cumprirem as recomendações de segurança.

“A única maneira de protegê-los seria retirá-los dos campos de refugiados, que estão muito cheios. Então, [com esta postura] automaticamente o governo diz: ‘nós vamos arriscar a vida dessas pessoas. Elas podem se arriscar a ficarem doentes’.”

Em Portugal, a situação dos refugiados também é precária. Em diálogo com Oshana, a deputada pelo Bloco de Esquerda Beatriz Gomes Dias relatou que as organizações que trabalham junto a essas populações não têm condições de acolhê-las por falta de alojamentos. Lá, segundo a parlamentar, os migrantes enfrentam obstáculos bastante difíceis de transpor. O maior deles diz respeito a regularização de sua permanência no território português.

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Foto: Roberto Parizotti/FotosPublicas

 


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